Contra-crítica.
O Trauma por trás da máquina: por que A Máquina de Guerra não é um filme dos anos 80
Nos últimos dias, o debate em torno de A Máquina de Guerra tomou um rumo curioso. Em vez de discutir narrativa, personagens ou estética, grande parte das análises sobre o filme acabou se concentrando em uma disputa cultural sobre o que seria ou não a tal “lacração”.
Assim, quase todo comentário sobre o longa parece girar em torno de ideologia — e raramente sobre o filme em si.
Antes de qualquer debate político — ou checagem dos níveis de testosterona — talvez seja útil começar pelo básico: o filme funciona como cinema?
Em linhas gerais, sim. A Máquina de Guerra, que acabou de estrear na Netflix (no início de março de 2026), é um entretenimento eficiente. Visualmente agradável, com ritmo acelerado e cenas de ação constantes, o longa entrega exatamente aquilo que promete: duas horas de espetáculo voltado ao entretenimento imediato. É, essencialmente, ação no formato de videogame.
Há, no entanto, um problema técnico evidente. O som é irregular em praticamente todos os aspectos. Trilha, efeitos e mixagem frequentemente parecem exagerados ou deslocados, como se alguém tivesse decidido regular o volume da experiência com um martelo.
Superado esse detalhe, o restante funciona dentro da proposta.
As atuações são corretas. Alan Ritchson entrega exatamente o que se espera dele: um protagonista funcional em um filme de ação. Nada que o coloque no caminho de um Oscar, mas certamente suficiente para consolidar sua posição no topo do cinema comercial.
Os personagens secundários, por outro lado, parecem existir apenas para cumprir função operacional. Não há grandes arcos dramáticos ou profundidade psicológica. Talvez por isso muitos deles sequer tenham nomes — apenas números, funcionando mais como funções dentro da ação do que como personagens propriamente ditos.
E isso, em si, não seria necessariamente um problema.
O verdadeiro tropeço do filme aparece em outro ponto: na tentativa — ou pelo menos na leitura que parte do público tem feito — de que ele estaria resgatando a aura dos filmes de ação dos anos 1980.
Não está. Nem de perto.
Nas redes sociais, a comparação com O Predador tornou-se automática, quase um reflexo. No entanto, A Máquina de Guerra tem muito pouco em comum com aquele clássico. Tampouco guarda semelhança com outros títulos marcantes do cinema de ação da década de 1980, como Comando para Matar, também estrelado por Arnold Schwarzenegger, ou as aventuras de Braddock, personagem imortalizado por Chuck Norris.
Em outras palavras, o filme pode até dialogar com a estética daquele período, mas está longe de reproduzir a lógica narrativa que definiu aqueles personagens e suas histórias.
Há uma diferença estrutural importante entre esses universos.
Nos filmes de ação dos anos 1980, a ameaça era o verdadeiro personagem da história. Em O Predador, por exemplo, a criatura alienígena ocupa o centro narrativo. O personagem de Schwarzenegger funciona quase como mediador da trama. O roteiro avança revelando, gradualmente, a natureza daquele inimigo.
Os personagens secundários não são meros figurantes armados. Cada um cumpre uma função dramática específica: o arrogante, o especialista técnico, o paranoico, o observador que percebe primeiro que algo está errado. Cada morte revela algo novo sobre o predador. Eles não estão ali apenas para atirar. São peças narrativas.
Em A Máquina de Guerra, a lógica é outra. Os coadjuvantes parecem importados diretamente de um videogame. Surgem, disparam armas, gritam, morrem e desaparecem sem deixar qualquer informação relevante para o desenvolvimento da história.
O próprio antagonista sofre do mesmo problema. A máquina alienígena — que deveria funcionar como motor dramático do filme — não apresenta profundidade ou mistério. Ela simplesmente aparece.
E aparece de maneira curiosa: trata-se de uma tecnologia alienígena extremamente avançada que, ao mesmo tempo, parece operar com um grande motor a diesel, com escapamento, exaustão e barulho mecânico abundante. É um híbrido curioso entre ficção científica de dobra espacial e uma estética quase diesel punk, reminiscente da imaginação tecnológica dos anos 1960.
Apesar dessas limitações, o filme cumpre sua função de entretenimento. É o tipo de produção feita para ser vista em uma noite de sábado, sem maiores pretensões. É pouco provável que provoque revisitas, mas dificilmente decepciona quem busca ação rápida.
Há, porém, um elemento impossível de ignorar: o forte tom de propaganda militar americana presente em alguns momentos do roteiro.
Em determinado diálogo, os soldados tentam identificar a origem da máquina:
— “Será que é russo?”
— “Não, os russos não têm orçamento para algo assim.”
— “Então deve ser chinês.”
— “Não, os chineses só sabem nos copiar.”
Em três frases, o roteiro resolve a geopolítica mundial e reforça o velho mito da supremacia militar norte-americana — um discurso que parece reaparecer sempre que o cinema busca reafirmar certas narrativas de poder.
Mas é curioso notar que, apesar dessa dimensão ideológica evidente, boa parte das discussões públicas sobre o filme se concentrou em outra questão: a ideia de que A Máquina de Guerra seria um raro exemplo de obra contemporânea “livre de lacração”.
Segundo essa leitura, o longa mereceria celebração justamente por não apresentar protagonismo feminino forte, diversidade visível ou discursos associados às chamadas minorias. Nessa interpretação, o filme seria apenas a história de um homem forte, resoluto e violento enfrentando seus inimigos — uma espécie de retorno ao arquétipo do herói clássico do cinema de ação.
O problema é que o próprio filme conta uma história diferente.
A tentativa de associar diretamente Dutch, de O Predador, ao personagem 81, protagonista de A Máquina de Guerra, não se sustenta.
Dutch é um militar resolvido. Um mercenário profissional que entra na narrativa com uma missão clara. Sua identidade não depende de traumas ou conflitos existenciais. Ele e sua equipe reagem a situações extremas com pragmatismo e estratégia.
Em uma cena célebre de O Predador, Poncho observa que um de seus companheiros está ferido. A resposta de Blain tornou-se uma das frases mais lembradas do cinema de ação: “Não tenho tempo para sangrar.”
O protagonista de A Máquina de Guerra segue uma lógica muito diferente.
Ele é apresentado como um soldado profundamente marcado por traumas. Carrega ferimentos físicos evidentes, instabilidade emocional e uma forte culpa pela morte do irmão. Sempre que possível, evita assumir qualquer posição de liderança, como se fugisse da responsabilidade por outros homens. Ainda assim, acaba sendo colocado à frente do grupo na avaliação final por ordem dos instrutores — uma decisão que sugere mais um teste destinado ao fracasso do que um reconhecimento de liderança. Sua permanência na missão não nasce de vocação militar ou patriotismo, mas de uma espécie de dívida moral pessoal.
Em vários momentos, o roteiro sugere que o personagem está à beira de um colapso psicológico. Ele depende de medicamentos e demonstra dificuldade em lidar com pressão extrema.
Esse contraste de personagens aparece de forma clara em um diálogo do próprio filme.
Após um combate com vários mortos e feridos, 81 insiste que o grupo precisa partir imediatamente. A resposta que recebe é que nem todos ali são heróis como ele e que as pessoas precisam de tempo para lidar com suas emoções. A simples menção da palavra “herói” o leva a um colapso emocional, transformando a situação em uma discussão sobre limites, julgamentos e expectativas.
Há ainda um detalhe curioso na construção deste personagem, identificado apenas como 81.
Segundo o diretor Patrick Hughes, a escolha foi deliberada. O número funcionaria como uma referência direta ao cinema de ação dos anos 1980 que o filme tenta homenagear. O “81” faria alusão simbólica ao ano de 1981, frequentemente apontado como um marco inicial da era de ouro dos blockbusters modernos, período que consolidou o arquétipo do herói invencível no cinema popular.
A ausência de um nome próprio também dialogaria com outra tradição narrativa. Assim como alguns personagens icônicos daquela década — e mesmo antes dela, no faroeste clássico — o protagonista seria uma espécie de “homem sem nome”, figura solitária definida mais por sua função do que por sua identidade.
Na teoria, trata-se de uma homenagem direta aos brucutus do cinema de ação daquela época.
Na prática, porém, o resultado aponta para outro tipo de personagem.
Mesmo carregando a estética do herói dos anos 80, o 81 de A Máquina de Guerra se aproxima muito mais do arquétipo que dominaria o cinema de ação nas décadas seguintes: o do combatente emocionalmente ferido, marcado por traumas e conflitos internos.
Em outras palavras, o filme parece mirar o herói invulnerável da década de 1980 — mas acaba acertando, quase sem querer, o protagonista atormentado do cinema contemporâneo.
Nada disso é necessariamente um problema narrativo. O cinema contemporâneo explora personagens emocionalmente feridos com muito mais intensidade do que o cinema de ação clássico.
O curioso é que muitos dos espectadores que celebram o filme como um retorno à masculinidade bruta dos anos 1980 parecem não perceber que seu protagonista se encaixa muito mais no arquétipo do herói moderno — o soldado traumatizado — do que naquele modelo antigo.
Outro detalhe revela essa contradição. Parte do público que defende o longa como uma obra “livre de lacração” também demonstrou frustração pelo fato de o protagonista não aparecer em cenas exibindo seu físico de forma mais enfática, algo comum nos filmes estrelados por Schwarzenegger.
No fim das contas, o debate ideológico em torno de A Máquina de Guerra parece revelar menos sobre o filme e mais sobre as expectativas culturais de quem o assiste.
Porque, ironicamente, o longa está longe de representar o retorno do herói invulnerável dos anos 1980. O que ele apresenta é justamente o contrário: um soldado ferido, emocionalmente instável e psicologicamente marcado tentando sobreviver em um cenário de guerra que já não compreende completamente.
A ironia final é que, ao tentar celebrar um pretenso retorno do 'herói sem tempo para sangrar', parte do público abraçou justamente o oposto: um protagonista que só faz isso, sangrar e sofrer. O debate, portanto, revela menos sobre o filme e mais sobre a disposição de se ignorar o que ele realmente é em favor da ideia que se quer ver na tela.
É difícil imaginar como Dutch lidaria com o robô de A Máquina de Guerra. Muito provavelmente montaria na máquina e enfiaria uma granada em seus dutos de exaustão. Já 81 provavelmente seria uma das primeiras presas do Predador — que, como qualquer bom caçador, começa sempre pelos mais fracos da manada.
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