sábado, 14 de março de 2026

Pode ser uma imagem de fisiculturismo 

Contra-crítica.

O Trauma por trás da máquina: por que A Máquina de Guerra não é um filme dos anos 80

 

Nos últimos dias, o debate em torno de A Máquina de Guerra tomou um rumo curioso. Em vez de discutir narrativa, personagens ou estética, grande parte das análises sobre o filme acabou se concentrando em uma disputa cultural sobre o que seria ou não a tal “lacração”.

Assim, quase todo comentário sobre o longa parece girar em torno de ideologia — e raramente sobre o filme em si.

Antes de qualquer debate político — ou checagem dos níveis de testosterona — talvez seja útil começar pelo básico: o filme funciona como cinema?

Em linhas gerais, sim. A Máquina de Guerra, que acabou de estrear na Netflix (no início de março de 2026), é um entretenimento eficiente. Visualmente agradável, com ritmo acelerado e cenas de ação constantes, o longa entrega exatamente aquilo que promete: duas horas de espetáculo voltado ao entretenimento imediato. É, essencialmente, ação no formato de videogame.

Há, no entanto, um problema técnico evidente. O som é irregular em praticamente todos os aspectos. Trilha, efeitos e mixagem frequentemente parecem exagerados ou deslocados, como se alguém tivesse decidido regular o volume da experiência com um martelo.

Superado esse detalhe, o restante funciona dentro da proposta.

As atuações são corretas. Alan Ritchson entrega exatamente o que se espera dele: um protagonista funcional em um filme de ação. Nada que o coloque no caminho de um Oscar, mas certamente suficiente para consolidar sua posição no topo do cinema comercial.

Os personagens secundários, por outro lado, parecem existir apenas para cumprir função operacional. Não há grandes arcos dramáticos ou profundidade psicológica. Talvez por isso muitos deles sequer tenham nomes — apenas números, funcionando mais como funções dentro da ação do que como personagens propriamente ditos.

E isso, em si, não seria necessariamente um problema.

O verdadeiro tropeço do filme aparece em outro ponto: na tentativa — ou pelo menos na leitura que parte do público tem feito — de que ele estaria resgatando a aura dos filmes de ação dos anos 1980.

Não está. Nem de perto.

Nas redes sociais, a comparação com O Predador tornou-se automática, quase um reflexo. No entanto, A Máquina de Guerra tem muito pouco em comum com aquele clássico. Tampouco guarda semelhança com outros títulos marcantes do cinema de ação da década de 1980, como Comando para Matar, também estrelado por Arnold Schwarzenegger, ou as aventuras de Braddock, personagem imortalizado por Chuck Norris.

Em outras palavras, o filme pode até dialogar com a estética daquele período, mas está longe de reproduzir a lógica narrativa que definiu aqueles personagens e suas histórias.

Há uma diferença estrutural importante entre esses universos.

Nos filmes de ação dos anos 1980, a ameaça era o verdadeiro personagem da história. Em O Predador, por exemplo, a criatura alienígena ocupa o centro narrativo. O personagem de Schwarzenegger funciona quase como mediador da trama. O roteiro avança revelando, gradualmente, a natureza daquele inimigo.

Os personagens secundários não são meros figurantes armados. Cada um cumpre uma função dramática específica: o arrogante, o especialista técnico, o paranoico, o observador que percebe primeiro que algo está errado. Cada morte revela algo novo sobre o predador. Eles não estão ali apenas para atirar. São peças narrativas.

Em A Máquina de Guerra, a lógica é outra. Os coadjuvantes parecem importados diretamente de um videogame. Surgem, disparam armas, gritam, morrem e desaparecem sem deixar qualquer informação relevante para o desenvolvimento da história.

O próprio antagonista sofre do mesmo problema. A máquina alienígena — que deveria funcionar como motor dramático do filme — não apresenta profundidade ou mistério. Ela simplesmente aparece.

E aparece de maneira curiosa: trata-se de uma tecnologia alienígena extremamente avançada que, ao mesmo tempo, parece operar com um grande motor a diesel, com escapamento, exaustão e barulho mecânico abundante. É um híbrido curioso entre ficção científica de dobra espacial e uma estética quase diesel punk, reminiscente da imaginação tecnológica dos anos 1960.

Apesar dessas limitações, o filme cumpre sua função de entretenimento. É o tipo de produção feita para ser vista em uma noite de sábado, sem maiores pretensões. É pouco provável que provoque revisitas, mas dificilmente decepciona quem busca ação rápida.

Há, porém, um elemento impossível de ignorar: o forte tom de propaganda militar americana presente em alguns momentos do roteiro.

Em determinado diálogo, os soldados tentam identificar a origem da máquina:

— “Será que é russo?”

— “Não, os russos não têm orçamento para algo assim.”

— “Então deve ser chinês.”

— “Não, os chineses só sabem nos copiar.”

Em três frases, o roteiro resolve a geopolítica mundial e reforça o velho mito da supremacia militar norte-americana — um discurso que parece reaparecer sempre que o cinema busca reafirmar certas narrativas de poder.

Mas é curioso notar que, apesar dessa dimensão ideológica evidente, boa parte das discussões públicas sobre o filme se concentrou em outra questão: a ideia de que A Máquina de Guerra seria um raro exemplo de obra contemporânea “livre de lacração”.

Segundo essa leitura, o longa mereceria celebração justamente por não apresentar protagonismo feminino forte, diversidade visível ou discursos associados às chamadas minorias. Nessa interpretação, o filme seria apenas a história de um homem forte, resoluto e violento enfrentando seus inimigos — uma espécie de retorno ao arquétipo do herói clássico do cinema de ação.

O problema é que o próprio filme conta uma história diferente.

A tentativa de associar diretamente Dutch, de O Predador, ao personagem 81, protagonista de A Máquina de Guerra, não se sustenta.

Dutch é um militar resolvido. Um mercenário profissional que entra na narrativa com uma missão clara. Sua identidade não depende de traumas ou conflitos existenciais. Ele e sua equipe reagem a situações extremas com pragmatismo e estratégia.

Em uma cena célebre de O Predador, Poncho observa que um de seus companheiros está ferido. A resposta de Blain tornou-se uma das frases mais lembradas do cinema de ação: “Não tenho tempo para sangrar.”

O protagonista de A Máquina de Guerra segue uma lógica muito diferente.

Ele é apresentado como um soldado profundamente marcado por traumas. Carrega ferimentos físicos evidentes, instabilidade emocional e uma forte culpa pela morte do irmão. Sempre que possível, evita assumir qualquer posição de liderança, como se fugisse da responsabilidade por outros homens. Ainda assim, acaba sendo colocado à frente do grupo na avaliação final por ordem dos instrutores — uma decisão que sugere mais um teste destinado ao fracasso do que um reconhecimento de liderança. Sua permanência na missão não nasce de vocação militar ou patriotismo, mas de uma espécie de dívida moral pessoal.

Em vários momentos, o roteiro sugere que o personagem está à beira de um colapso psicológico. Ele depende de medicamentos e demonstra dificuldade em lidar com pressão extrema.

Esse contraste de personagens aparece de forma clara em um diálogo do próprio filme.

Após um combate com vários mortos e feridos, 81 insiste que o grupo precisa partir imediatamente. A resposta que recebe é que nem todos ali são heróis como ele e que as pessoas precisam de tempo para lidar com suas emoções. A simples menção da palavra “herói” o leva a um colapso emocional, transformando a situação em uma discussão sobre limites, julgamentos e expectativas.

Há ainda um detalhe curioso na construção deste personagem, identificado apenas como 81.

Segundo o diretor Patrick Hughes, a escolha foi deliberada. O número funcionaria como uma referência direta ao cinema de ação dos anos 1980 que o filme tenta homenagear. O “81” faria alusão simbólica ao ano de 1981, frequentemente apontado como um marco inicial da era de ouro dos blockbusters modernos, período que consolidou o arquétipo do herói invencível no cinema popular.

A ausência de um nome próprio também dialogaria com outra tradição narrativa. Assim como alguns personagens icônicos daquela década — e mesmo antes dela, no faroeste clássico — o protagonista seria uma espécie de “homem sem nome”, figura solitária definida mais por sua função do que por sua identidade.

Na teoria, trata-se de uma homenagem direta aos brucutus do cinema de ação daquela época.

Na prática, porém, o resultado aponta para outro tipo de personagem.

Mesmo carregando a estética do herói dos anos 80, o 81 de A Máquina de Guerra se aproxima muito mais do arquétipo que dominaria o cinema de ação nas décadas seguintes: o do combatente emocionalmente ferido, marcado por traumas e conflitos internos.

Em outras palavras, o filme parece mirar o herói invulnerável da década de 1980 — mas acaba acertando, quase sem querer, o protagonista atormentado do cinema contemporâneo.

Nada disso é necessariamente um problema narrativo. O cinema contemporâneo explora personagens emocionalmente feridos com muito mais intensidade do que o cinema de ação clássico.

O curioso é que muitos dos espectadores que celebram o filme como um retorno à masculinidade bruta dos anos 1980 parecem não perceber que seu protagonista se encaixa muito mais no arquétipo do herói moderno — o soldado traumatizado — do que naquele modelo antigo.

Outro detalhe revela essa contradição. Parte do público que defende o longa como uma obra “livre de lacração” também demonstrou frustração pelo fato de o protagonista não aparecer em cenas exibindo seu físico de forma mais enfática, algo comum nos filmes estrelados por Schwarzenegger.

No fim das contas, o debate ideológico em torno de A Máquina de Guerra parece revelar menos sobre o filme e mais sobre as expectativas culturais de quem o assiste.

Porque, ironicamente, o longa está longe de representar o retorno do herói invulnerável dos anos 1980. O que ele apresenta é justamente o contrário: um soldado ferido, emocionalmente instável e psicologicamente marcado tentando sobreviver em um cenário de guerra que já não compreende completamente.

A ironia final é que, ao tentar celebrar um pretenso retorno do 'herói sem tempo para sangrar', parte do público abraçou justamente o oposto: um protagonista que só faz isso, sangrar e sofrer. O debate, portanto, revela menos sobre o filme e mais sobre a disposição de se ignorar o que ele realmente é em favor da ideia que se quer ver na tela.

É difícil imaginar como Dutch lidaria com o robô de A Máquina de Guerra. Muito provavelmente montaria na máquina e enfiaria uma granada em seus dutos de exaustão. Já 81 provavelmente seria uma das primeiras presas do Predador — que, como qualquer bom caçador, começa sempre pelos mais fracos da manada.

terça-feira, 8 de abril de 2025

Trump vs Xi: US relations with China under threat as 2018 EGO BATTLE begins  | World | News | Express.co.uk

A Armadilha Americana: Como os EUA Estão Plantando Seu Próprio Colapso

Hélio Torres

O escritor e analista estatístico Nassim Nicholas Taleb definiu dois conceitos cruciais para a compreensão da imprevisibilidade em sistemas complexos: o Antifrágil e o Cisne Negro. Sua obra oferece uma lente valiosa para analisar a dinâmica econômica e geopolítica contemporânea.

Antifrágil é aquilo que se fortalece com o caos, o estresse e a incerteza. Diferentemente do que é frágil (quebra) e do que é robusto (resiste), o sistema antifrágil cresce e melhora quando desafiado. O exemplo dos músculos humanos, que se desenvolvem com esforço e microdanos, ilustra bem essa propriedade.

Já o Cisne Negro é um evento raro, imprevisível e de enorme impacto, que, após sua ocorrência, é frequentemente racionalizado como algo previsível em retrospecto. Taleb critica a ilusão de previsibilidade em sistemas complexos e alerta que os grandes colapsos costumam emergir do inesperado -- e do excesso de confiança no que presumimos saber.

Desde os anos 1990, auge do neoliberalismo, os Estados Unidos vêm acelerando um processo silencioso e profundo de desindustrialização. Consequentemente, grandes corporações americanas, em busca de mão de obra mais barata e maior margem de lucro, transferiram suas operações para a Ásia -- especialmente para a China, ainda pouco industrializada naquela época. Em troca da instalação de fábricas, os países asiáticos exigiram o que reconheciam como mais valiosa do que o próprio capital: a transferência de tecnologia.

Essa estratégia teve consequências visíveis. Cidades como Detroit, que outrora foram o coração da indústria automobilística americana, entraram em colapso econômico, social e urbano. Fábricas abandonadas, desemprego crônico e êxodo populacional tornaram-se marcas de uma região que simboliza o que acontece quando uma nação abre mão de sua produção real.

Enquanto isso, cidades chinesas como Pequim, que nos anos 90 sequer possuíam metrô, passaram a contar com centenas de quilômetros de linhas subterrâneas em poucas décadas, fruto de investimentos maciços em infraestrutura e tecnologia, financiados, em grande parte, pela exportação industrial incentivada pelos EUA.

No curto prazo, os EUA obtiveram produtos mais baratos, inflação controlada e lucros extraordinários para suas empresas. Contudo, no longo prazo, perderam algo essencial: o músculo industrial que sustentava sua hegemonia econômica.

A troca de tecnologia, em muitos casos, foi indireta. Considere-se o caso da Tesla e da BYD. Enquanto a Tesla foi pioneira na mobilidade elétrica e levou parte de sua produção para a China, a BYD soube absorver conhecimento, replicar modelos e inovar em escala local. Atualmente, disputa o mercado global com a própria Tesla e lidera em segmentos como baterias e frotas urbanas. Esse cenário ilustra perfeitamente o conceito de antifragilidade sistêmica, como descrito por Taleb: aprender com o caos, crescer com a adversidade.

Agora, com projeções apontando para a superação da economia americana em breve, os EUA se veem pressionados a reagir. A resposta do governo atual, sob Donald Trump, é emblemática: taxar produtos importados para estimular o retorno da indústria nacional. Paralelamente, promove uma cruzada contra a imigração, reduzindo drasticamente o fluxo de trabalhadores -- justamente quando o país mais necessita de mão de obra.

A contradição é flagrante: como reindustrializar um país sem pessoas para ocupar os postos de trabalho industriais? Quem irá operar as linhas de montagem, manter as fábricas funcionando, dar vida ao projeto de “America First”? A resposta é inquietante: ninguém.

Ademais, o americano médio não demonstra disposição para trocar o conforto do consumo e da economia digital por um turno de 12 horas em uma fábrica. E mesmo que o fizesse, o custo de produção doméstico torna a proposta inviável sem massiva automação -- que, por sua vez, gera poucos empregos.

Essa política configura, portanto, uma fórmula de fracasso anunciada: tenta reviver a indústria à base da força bruta protecionista, mas sem o capital humano necessário. Ignora que a força histórica dos EUA sempre residiu em sua capacidade de atrair cérebros e braços do mundo todo, transformando imigrantes em inovação, progresso e riqueza.

É aqui que os conceitos de Taleb se mostram especialmente reveladores.

A crise de 2008, que expôs a fragilidade do sistema financeiro global, foi um típico Cisne Negro: um evento inesperado, de impacto profundo, racionalizado posteriormente por aqueles que se diziam surpresos. Os EUA, com sua aposta na financeirização da economia e na terceirização produtiva, construíram um sistema frágil, vulnerável a choques e desconectado da base real da produção.

Taleb ensina que sistemas saudáveis são antifrágeis -- crescem com o caos, fortalecem-se no estresse. A China agiu precisamente dessa maneira: utilizou sua desvantagem inicial como alavanca. Absorveu o know-how estrangeiro, investiu em infraestrutura e formação técnica, e agora colhe os frutos da antifragilidade.

Em contraste, os EUA parecem persistir em um modelo rígido, contraditório e autossabotador. Tentam proteger a economia com barreiras (tarifas), enquanto bloqueiam o fluxo vital que a manteria ativa (imigração). Desconsideram que a verdadeira força de uma nação não reside em replicar o passado, mas em reinventar-se com inteligência e humildade diante da mudança.

Sem uma estratégia coerente de requalificação da mão de obra, valorização da educação técnica, incentivo à imigração qualificada e reestruturação produtiva, os Estados Unidos podem estar, inadvertidamente, plantando as sementes de seu próprio declínio como hegemonia econômica mundial. Como ensina a própria história, impérios costumam ruir não por ataques externos, mas por decisões equivocadas tomadas em tempos de aparente estabilidade -- e excesso de confiança.

Até o momento, usando linguagem de rua, Trump está 'Musk'ando enquanto a China apenas observa o projeto "sem galantia" de Trump, que parece nunca ter assistido nenhum episódio de O Aprendiz.


sábado, 12 de outubro de 2019

Existe essa tal brasilidade?


Existe essa tal brasilidade?
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Primeiro o primeiro: onde começa a história do Brasil?

Os portugueses assumem como sua, a história em sua colônia americana até 7 de setembro de 1822. Nós, brasileiros, começamos a absorver a história do país exatamente na órbita curta dos últimos meses do século XV. Mais precisamente o dia 22 de abril de 1500.

Do ponto de vista historiográfico, ambos estão certos e cabe aqui uma reflexão pouco feita: há um lapso de “brasilianismo” em todo o século XVI e parte do XVII. Até 1822 é história de Portugal, do Brasil ou ambos? Bom, isso importa menos no caminho da busca da brasilidade.

Veja bem, o sentimento de brasilidade, aparece de maneira tímida somente no século XIX. Somente no primeiro giro da roda republicana, começamos a ver arroubos de sentimento nacional. Mas, reflitamos sobre sentimento de brasilidade. Como se dá esse sentimento?

O ano é 1889. 18 meses antes, a princesa Isabel, monarca brasileira, representando o irmão imperador que cuidava da saúde na Itália, num movimento desesperado em ainda manter de pé a monarquia brasileira cambaleante e ameaçada, assina a carta de libertação dos escravos. Como sabemos, não resultou no objetivo político de agradar a grupos abolicionistas e a carta foi, para seu propósito específico, um tímido voo de galinha na questão escravista.

O Brasil nasce de fato ambíguo. No topo, elites de grupos nacionalistas buscando um sentimento nacional (uma grande desculpa por tomada de poder) "lutam" pela independência, logo abaixo uma pequena população livre, pobre e já mestiça que goza de algum privilégio dada a origem de alguma linhagem europeia em seus traços físicos; povos indígenas nativos que em milênios jamais refletiam sobre o passado, contado apenas em lendas narradas ao pé de fogueira, angustiados com o futuro e cada vez mais acuados; e num outro canto, representando a maioria da população do país, negros, recém libertados que ainda tentavam cicatrizar as enormes e profundas feridas dos quase 350 anos de açoites, estupros, assassinatos, privações e massacres que sofreram nesse tempo, perdidos em lugar nenhum. Não eram mais africanos e nem brasileiros. Como um negro liberto se sentiria "brasileiro"?

O negro brasileiro tem ou poderia ter todos os motivos do mundo para odiar essa terra. Escravidão, desprezo, desdém e tolerância prática. Essa é a ordem cronológica simplificada.

De 13 de maio de 1888 até 5 de outubro de 1988, paira a marca de um século de profundas e rápidas mudanças nesse país, mas esse sentimento de brasilidade, se é que existe, insisto, precisa ser refletido.

Apenas dois anos antes da assinatura da nossa última constituição (e lá se vão 7), em 3 de setembro de 1986, segundo um texto de um jornal religioso chamado Correio Fraterno (ABC), o ex-escravo nomeado aqui chegando de Valdomiro Silva, o último escravo que ainda vivia no Brasil, morre aos 121 anos. Tomemos Valdomiro como nosso personagem narrativo por um momento mesmo como licença poética. Viveu em terra brasilis exatos 104 anos. Chegou aqui num porão de um navio negreiro em 1882. Recebeu um novo nome, marca de ferro quente, grilhões, bridões, arreios, correntes, açoites e muito trabalho.

Valdomiro viu a escravidão ser abolida, viu o abandono e o desprezo, mas teve a sorte de ter um branco como amigo quase irmão que o ajudou na jornada da vida.

Valdomiro viu a popularização dos bondes, das linhas telefônicas, das antenas de rádio; viu navios de madeira que por séculos trouxeram seus pares para esse continente serem sumariamente substituídos por barcos fumegantes de metal; viu as notícias do voo de Santos Dumont na efervescente Paris de 1906 e viu também nossos primeiros protestos sindicais.

Valdomiro sentiu na pele a "invasão" branca europeia substituta que trouxe junto o racismo sentimental que somado à já existente discriminação de classe, formam o racismo institucional velado atual; viu velhos oficiais brancos embarcando para dar suporte médico e salvar vidas à tríplice intente na primeira guerra e viu jovens soldados rasos mestiços pobres embarcando para a morte no coração da segunda. Ouviu notícias de um novo tipo de bomba que explodiu sobre o Japão. Viu chegar a TV, os veículos automotores e todo tipo de geringonça elétrica. Viu na TV ainda em preto e branco o homem chegar à lua e um pouco antes a construção da nova capital do país. Valdomiro pôde ter visto na TV já em cores, o laranja intenso e frenético das chamas das Napalm sobre as florestas do Vietnã como também o pulo histórico do negro João do Pulo, que estabeleceu um registro que duraria 10 anos a ser superado. Deve ter ouvido também o relato do funcionário do hospital que atendeu João e seus dois acompanhantes do carro no acidente que lhe custou uma perna e a vida aos outros ou ouvir quando a polícia dizia: ”tem três camaradas no camburão da polícia em estado muito grave. Querem saber se devem tirá-los do camburão ou esperar morrer”. Sorte de João ser um atleta vencedor ainda no calor das conquistas e sorte ainda ser de interesse da impressa que lotava o hospital por notícias.
Valdomiro viu também o futebol nascer, se popularizar e se tornar um referencial nacional no mundo. Mesmo tendo chegado sob os estalos da chibata num porão negreiro, pôde ter vibrado com os fogos comemorativos das conquistas dos mundiais de 58, 62 e 70. As três tendo negros e mestiços como protagonistas e um negro como estandarte e como o melhor ser humano naquela função e o que aparentemente perdura até hoje. Triste é ver o desinteresse desse estandarte na questão racial. Enfim.

E quem garante que Valdomiro não possa ter se juntado ao coro dos torcedores em pranto com o maracanazo de 1950? Motivo não faltava, pois, o negro Barbosa, goleiro, recebeu sozinho a injusta a culpa pelo desastre. Teria Valdomiro algum sentimento de classe? De grupo? De identificação e representatividade? Talvez nunca se descubra. Talvez tenha chorado apenas pela derrota em si. Eis aqui, se houve, um sentimento de pertencimento.

Seria o futebol de fato nosso grande elo brasileirista?

Os mais de 300 anos de escravidão da maior parte dos habitantes locais condiciona o ser brasileiro moderno.

Não dá para amadurecer como sociedade tão rápido assim.

A brasilidade é um sorriso amarelo. Toda tentativa de criar um sentimento de unidade, mesmo no futebol, é falsa. "Brasil ame-o ou deixe-o" é um slogan boboca e sem o menor sentido.

É preciso refletir sobre nosso resultado de sociedade.

É inegável que somos um conjunto de pessoas que compartilham o mesmo idioma num amontoado de sotaques e que esse fator - língua - nos isolou do mundo mesmo compartilhando mais de 15 000 quilômetros de fronteiras terrestres com vizinhos.

Devemos pensar o Brasil de fato como uma república de 130 anos. Começa com o conceito de negro livre, mas também começa com políticas de branqueamento e eugenia.

Começa com o governo do alagoano Deodoro da Fonseca chega hoje com o governo de um paulista que pensa como pensavam os homens na época de Deodoro da Fonseca: ignorando ou desconhecendo as mazelas de uma complexa sopa social.

Avanços? Muitos! Retrocessos? Inúmeros. Na conta, prejuízo.

Ser brasileiro é diferente de se sentir brasileiro, porque esse sentimento de fato não existe.

Ser brasileiro é um tecnicismo burocrático. Se sentir brasileiro carece de reflexão e entendimento.

A brasilidade precisa ser desenvolvida como nação unida e nesses 130 anos de país, a sociedade nacional caminhou apenas no sentido de manter a ordem das classes em seus "devidos" lugares. Os que dominam hoje são os que dominam sempre. Há nisso vários “brasis”. Cada um ao “gosto” do freguês. Os muros dos condomínios gritam escandalosamente o determinismo dessas fronteiras internas imaginárias.

O povo hoje trabalhador, mestiço, é o negro do início da república.

O viver é o novo trabalho, o trabalho é o novo açoite e o salário e a ração do limite da sobrevivência.

A polícia é o novo capitão do mato e como dizia o (arrependido) Lobão, "a favela é a nova senzala".

Para finalizar, faça o autoexame: defina seu orgulho de ser brasileiro. Pense nisso!

Em seguida defina o que é ser brasileiro.

Analise os resultados com a máxima honestidade possível.

Após isso, podemos começar a pensar como contar a história do país.













domingo, 28 de janeiro de 2018

Professores são descartáveis. Educadores são eternos.

  
Engenheiro! Foi o que respondi ao professor ainda na quarta série quando me perguntou o que queria ser quando adulto. Você é pobre. Esqueça isso! Não é para você. Siga a profissão de seu pai. Foi sua resposta. Aliás, foi uma orientação séria.
    Minha resposta obviamente estava condicionada com o fato de meu pai ser construtor e de enxergar naqueles capacetes brancos algo admirável. Entretanto, aquela orientação dizia que minha condição de existência permitiria no máximo o capacete azul de meu pai, do qual sempre muito me orgulhei e que me trouxe até aqui. Aceitei a condição. Ele era o professor.
    No início da sétima série, já em outro colégio, nas primeiras aulas de Português, houve uma fissura na grossa membrana que envolvia minha existência nesse mundo. A frase “você pode ser o que quiser, mas para isso, é preciso conhecer a ti mesmo” tomou por um momento a função de fórceps e finalizou meu nascimento, já com 12 anos.
    Professor Mauro, filósofo e linguista de fino trato, sabia manejar o fórceps as palavras como poucos. E elas eram reveladoras. Inspiradoras. Eram chaves.
   Citando Freire, explicava como as forças dominantes tendiam a criar círculos de existência rodeados de obstáculos para que grupos dominados aceitassem suas condições e reproduzissem seus pares infinitamente. 
   Não saberia dizer se resultou positivo para todos. No meu caso, entre outras coisas me fiz engenheiro, mas já no andamento do curso, me descobri professor e a cada manhã volto àquela sala de quarta série de chão batido, numa periferia rural do início dos anos 80, para dizer para cada aluno que ele pode ser o que quiser. Até mesmo construtor se desejar.

   Tatuei no fundo da mente o mantra da frase de Rubem Alves que dá título a esse texto.


domingo, 22 de outubro de 2017

TRATO FEITO - EU QUERO ACREDITAR






Quando voltei ao Brasil depois de morar um bom tempo fora, tentei manter alguns hábitos adquiridos no velho mundo e um deles era o de ver o Canal de História. Bom, aqui todos chamam de History Channel. Isso já seria o prelúdio do que eu encontraria.

Pois bem, ao contrário do que passa na Europa, as versões desse canal possuem forte produção nacional e quase não sobra espaço para os programas enlatados Made in America. Obviamente que programas populares como Trato Feito tem seu lugar, porém, o forte é a produção histórica.

É certo que os europeus são fissurados em história já que estamos falando do berço de tudo isso e de milênios de coisas para se orgulhar (e se envergonhar).

No Brasil, imediatamente veio a decepção: o "nosso" Canal de História não passa de um amontoado de programas ruins, quase todos realities, coisas sem sentido e muita, muita coisa sobre extraterrestres.

O History hoje é um canal pago onde sua grade se divide em 1/3 do tempo fazendo propaganda de si mesmo, outro terço falando de história dos EUA de maneira bem rasa e o restante entre Trato Feito, realities e "Ovniologia" (????) ....


Possuem o H2 onde focam mais na produção histórica, mas ainda assim, tudo focado no público dos EUA com dublagem ruim (a dublagem por melhor que seja já é algo negativo) e pauta sem critério claro.

Produtores desses canais chegaram recentemente ao ponto de enganar vários importantes historiados e pensadores brasileiros que agora, sentindo-se enganados, começam a exigir a retirada de seus nomes de um novo programa com bastante carga ideológica com forte objetivo manipulador e distorcido.

Porque essas coisas acontecem aqui?
Eu sinceramente acredito que a educação, o ensino de história no Brasil é chato. É enfadonho e pouco elaborado.
Tudo isso cria frustração nas novas gerações que se decepcionam com esses modelos numa licenciatura. O número de evasão dos cursos, incluindo os federais provam isso. Os alunos entram na esperança de aprender história e acabam atolados num mar de diretrizes educacionais burocráticas onde é mais importante aprender as normas ABNT do que refletir sobre a sociedade colonial brasileira ou tecer críticas sobre os rumos do tratamento à documentação da época da ditadura.

Isso faz com que toda uma geração de historiadores seja negligenciada. O que afeta o estímulo que a população em geral teria em conhecer e produzir história.


É por causa dessa postura, essa falta de criar uma didática mais moderna, jovem e atraente, que programas oportunistas com objetivo ideológico e caráter distorcido como esse Brasil Paralelo ou essa série Guia Politicamente Incorreto do Brasil prosperam e adquirem sucesso. Aliás, somente por ter aberto espaço para essa série, mostra o tipo de atenção que se é dada a história nesse país. Cada um fala o que quer sem a menor preocupação analítica. A questão é pura ideologia.


Confesso que me desanima ver que a maioria dos historiadores desse país, incluindo professores e colegas contemporâneos, produzem pouco ou nada em suas áreas. A maioria investe fortemente em seus currículos para logo se fecharem em sala de aula e não produzirem nada além de textos de cultura geral que em nada contribuem para a produção de história ou estímulo pelo interesse da área.

Incluo-me aí também.