domingo, 22 de outubro de 2017

TRATO FEITO - EU QUERO ACREDITAR






Quando voltei ao Brasil depois de morar um bom tempo fora, tentei manter alguns hábitos adquiridos no velho mundo e um deles era o de ver o Canal de História. Bom, aqui todos chamam de History Channel. Isso já seria o prelúdio do que eu encontraria.

Pois bem, ao contrário do que passa na Europa, as versões desse canal possuem forte produção nacional e quase não sobra espaço para os programas enlatados Made in America. Obviamente que programas populares como Trato Feito tem seu lugar, porém, o forte é a produção histórica.

É certo que os europeus são fissurados em história já que estamos falando do berço de tudo isso e de milênios de coisas para se orgulhar (e se envergonhar).

No Brasil, imediatamente veio a decepção: o "nosso" Canal de História não passa de um amontoado de programas ruins, quase todos realities, coisas sem sentido e muita, muita coisa sobre extraterrestres.

O History hoje é um canal pago onde sua grade se divide em 1/3 do tempo fazendo propaganda de si mesmo, outro terço falando de história dos EUA de maneira bem rasa e o restante entre Trato Feito, realities e "Ovniologia" (????) ....


Possuem o H2 onde focam mais na produção histórica, mas ainda assim, tudo focado no público dos EUA com dublagem ruim (a dublagem por melhor que seja já é algo negativo) e pauta sem critério claro.

Produtores desses canais chegaram recentemente ao ponto de enganar vários importantes historiados e pensadores brasileiros que agora, sentindo-se enganados, começam a exigir a retirada de seus nomes de um novo programa com bastante carga ideológica com forte objetivo manipulador e distorcido.

Porque essas coisas acontecem aqui?
Eu sinceramente acredito que a educação, o ensino de história no Brasil é chato. É enfadonho e pouco elaborado.
Tudo isso cria frustração nas novas gerações que se decepcionam com esses modelos numa licenciatura. O número de evasão dos cursos, incluindo os federais provam isso. Os alunos entram na esperança de aprender história e acabam atolados num mar de diretrizes educacionais burocráticas onde é mais importante aprender as normas ABNT do que refletir sobre a sociedade colonial brasileira ou tecer críticas sobre os rumos do tratamento à documentação da época da ditadura.

Isso faz com que toda uma geração de historiadores seja negligenciada. O que afeta o estímulo que a população em geral teria em conhecer e produzir história.


É por causa dessa postura, essa falta de criar uma didática mais moderna, jovem e atraente, que programas oportunistas com objetivo ideológico e caráter distorcido como esse Brasil Paralelo ou essa série Guia Politicamente Incorreto do Brasil prosperam e adquirem sucesso. Aliás, somente por ter aberto espaço para essa série, mostra o tipo de atenção que se é dada a história nesse país. Cada um fala o que quer sem a menor preocupação analítica. A questão é pura ideologia.


Confesso que me desanima ver que a maioria dos historiadores desse país, incluindo professores e colegas contemporâneos, produzem pouco ou nada em suas áreas. A maioria investe fortemente em seus currículos para logo se fecharem em sala de aula e não produzirem nada além de textos de cultura geral que em nada contribuem para a produção de história ou estímulo pelo interesse da área.

Incluo-me aí também.


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Dando a mão à palmatória...em breve.


Imagem de um corretivo com palmatória.

Está em debate recente uma proposta de modificação da estrutura de disciplinas a serem ensinadas nas escolas. Insinua-se, sem admitir inicialmente, que não haverá fusão de disciplinas de mesma área, como surgiram comentários de bastidores falando sobre a ideia de aglutinar Filosofia, Sociologia e História numa única disciplina de ciências humanas.
Reflexo de um pensamento positivista que toma forma algumas décadas depois de seu auge por terras brasileiras. Quem diria: um pensamento positivista que ignora ou pormenoriza a sociologia. Usando um bordão popular; Comte deve se revirar no túmulo ao ver coisas do tipo.

A ideia de que o ensino de “verdade” deva ser basicamente idiomas, matemática e biologia prática, encontra abrigo logicamente, nas mentes de burocratas pouco familiarizados com as dinâmicas e processos pedagógicos desenvolvidos e debatidos por décadas e adaptados a cada tempo por entender aspectos temporais. É preocupante que esses assuntos pungentes, decididamente sérios, que maioritariamente surgem de afagos políticos, educadores e especialistas da educação nunca são consultados e quando são, seus pareceres resultam pouco determinantes, porque quase sempre contrariam a ideia propositora. 

Como tratar iguais, alunos de escola privada, com mensalidades em muitos casos equivalentes ao rendimento bruto total de muitas famílias, com alunos filhos dessas famílias em escola pública? Em ambos casos, é inimaginável tratar os dois perfis de alunos como se fossem produtos embalados em uma prateleira. Ou, guardando todas e devidas proporções; como tratar alunos de realidades tão distintas, como cães num curso de adestramento ensinando “Poodles” e “Vira-latas” a seguirem padrões de comando e resposta? (Sim, estereotipei aqui nas referências só para dar uma sacudida).
O problema da educação não está na aplicação de um modelo positivista. Está na falta de atenção que se dá a ela, ignorando as motivações e os contextos sociais dos seres humanos que entram pela porta da sala de aula. Colocar guias ou cabrestos nos personagens da educação é não querer entender o problema, complexo por demais. Nem sempre 2 + 2 são 4.

Daí surge um paradoxo ou melhor dizendo, uma contradição. Em partes, a saber:
Romper com a ordem atual para criar uma nova ordem para obter o progresso é no mínimo contraditório, já que para o positivismo, é preciso manter a ordem para se obter o progresso.
Possivelmente as mentes conservadoras, recém-saídas de seus armários coloniais de madeira de lei, “cheirando” a naftalina, entendem esse processo não como quebra de ordem, mas sim, como reordenamento, flertando sempre com uma ordem duvidosa de décadas anteriores com um ensino de formas definidas e configurações uniformes, que igualava alunos e professores em instrumentos em série, os quais necessitariam apenas de pequenos ajustes (ou descarte e substituição numa análise mais rigorosa). Como nota de recordação é sempre ruim bom relembrar seu ícone estrela:  a “disciplina” de Moral e Cívica e também seu primo bastardo, a Organização Social da Política Brasileira. 

Em tempos de propostas de “escola sem partido”, onde insistem que a doutrinação “vigente” deve ser combatida, soa curioso ver todos os elogios dessas mesmas pessoas às escolas militares, ignorando ou quem sabe até mesmo não se dando conta, de que aquele tipo de “ensino” é PER SE, doutrinador. Desde a ida ao banheiro até o momento de levantar a mão DIREITA durante uma dúvida em sala de aula.

(...uó uó uó... – Como diria um amigo, esse é o som do alarme de proselitismo ligado.)

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Os 90 minutos de volta aos 90.

O Brexit, saída do Reino Unido da União Europeia, é apoiado por Donald Trump, o fascista estadunidense, Nigel Farage, o fascista inglês, e Marine Le Pen, a fascista francesa.

Quando tanta gente ruim apoia uma coisa, não poder se uma boa ideia.

Se aprovado, trará consequências ao futebol europeu. E caso outros países com governos conservadores comecem a desmontar o bloco aderindo à ideia, países secundários puxarão a fila.

O que isso tem a ver com o futebol?
Seria o fim do efeito da lei Bosmam que permite livre circulação de jogadores (trabalhadores) na união europeia. Só pra exemplificar o caso do Reino Unido, caso o parlamento não vete, e a tendência é de aprovação, Gareth Bale do Real Madrid, passaria a utilizar vaga de estrangeiro e os não ingleses teriam o mesmo destino nas terras de xeiquispir.

O que isso na prática significaria pra nós, sul-americanos?
Bem, europeus ocupando vaga de estrangeiros, voltaríamos ao modelo dos anos 90 onde somente os mais destacados seriam contratados.
Pra se ter uma ideia, hoje, a Fifa determina 3 vagas para estrangeiros nos times com alguma variação de país pra país. Um time como o Real Madrid, possui, Casemiro, James e Danilo ocupando essas vagas. Com a Espanha fora da zona euro, o clube teria que escolher apenas 4 nomes do grupo formado por: Pepe, Modric, Bale, Cristinaldo, Benzema, kroos...além dos já citados, Casemiro, Danilo e James. Além de abrir mão de tentar Pogba, Agueiro e Douglas Costa. (Marcelo e Navas possuem nacionalidade espanhola).
O Barcelona teria um pouco menos de problemas, já que utiliza muito a base e alguns estrangeiros não são tão fundamentais, como Arda, Adriano, Mathieu e Rakitić. Teria problemas no gol onde os dois goleiros são de fora. Mascherano deve sair e Alves possui nacionalidade, porém sai do clube.
De todas as maneiras, na prática, na velocidade da política e da burocracia, possivelmente apenas o que estiver relacionado com o reino unido teria algum impacto imediato. A adesão de outros países poderá se dar em décadas e não alcançaria as gerações atuais de jogadores.
Imagino também, que mesmo que fosse imediato, os organismos europeu e mundial que regem o futebol, dariam algumas concessão ou carências para as novas adequações evitando prejuízos aos clubes e aos atletas pelo menos por um prazo de uns 5 anos que é o tempo máximo permitido de duração contratual.
Particularmente, penso que seria bom para o futebol em geral fazendo com que os clubes equiparem forças, invistam e apostem na base e distribuía os talentos de maneira mais uniforme.
É esperar pra ver.

sábado, 11 de junho de 2016

A Fogueira de Jesus

 
Sem (São) João! Informa o cartaz.

A onda evangélico conservadora que tomou conta da educação de muitas cidades em vários estados nas últimas décadas, vem pouco a pouco causando transformações comportamentais que acabam por distorcer características culturais que sempre fizeram parte da convivência social entre escola e comunidade.
Nos últimos anos, pessoalmente, pude constatar a diminuição ou a maquiagem de importantes traços desses laços.

As festas juninas, em muitas escolas, tanto públicas quanto privadas, dirigidas por evangélicos ou com o quadro de professores maioritariamente com essa inclinação religiosa, foram definitivamente suprimidas, minimizadas ou transformadas em festas "neutras" por um entendimento particular de que eram festas católicas. Presenciei inclusive mesas de bilhar e jogos de cartas comprados com intuito estritamente lúdico, juntamente a outros jogos coletivos, serem desativados nestas gestões por carregarem um ranço preconceituoso relacionados com supostos vícios pecaminosos.

Hoje é possível ver em muitas escolas, e isso é uma tendência crescente, que ao invés de eliminar a tradicional celebração do mês de junho, acabam por transforma-la em algo sem o menor contexto ou importância cultural. Inúmeras escolas, e isso pude presenciar pessoalmente, transformaram essas festas em festas "Country" numa tentativa torpe de preservar a referência caipira das quadrilhas. Um fiasco! Um pastiche!
Meninos e meninas com chapéus, vestidos em estampas xadrez calçando botas reluzentes brincando ao som de Aline Barros e sua trupe sem terem ideia da razão daquilo. Formando pares serelepes numa quadrilha...gospel!

Aliás, Gospel, é uma palavra coringa. "Gourmetiza" algo que é pecado em algo santo.

Quadrilha é festa católica. É pecado.
Quadrilha Gospel não!
Balada é festa 'do mundo' e é pecado.
Balada Gospel não!
Show de rock é libertinagem, portanto, é pecado!
Rock Gospel não! ( Principalmente o do Rodolfo Abrantes :P )

Os governos não interferem, com medo de surras nas urnas caso desagrade alguma congregação. Embora muitas de suas pastas sejam secretariadas por pessoas de mesmo viés religioso, portanto, nada fazem.
Os políticos locais? Remam de acordo com a maré eleitoral.

Aqueles velhas cantigas de São João, que serviam de roteiro para animadas quadrilhas soam cada vez mais longe e mais tímidas ou possuem versões adaptadas ao selo "Gospel". A encenação, sob o olhar de Santo Antônio, do casamento caipira com direito a padre cômico? Peça de museu.
Fogueira de São João? Necas! Talvez num futuro queime alguns infiéis.

As festas juninas hoje nas escolas são apenas um arremedo do que um dia foi um forte e característico traço cultural, em um passado não tão distante que inclusive não ficava restrito ao ambiente escolar. Há duas décadas era normal ver várias ruas em todos os bairros fechadas e caprichosamente enfeitadas para essas celebrações. Tudo feito manualmente envolvendo a participação geral.

É uma pena ver, na altura do calendário gregoriano, que a ignorância e a intolerância vença algo que unia as pessoas. E pra mais espanto, que isso esteja acontecendo em ambiente escolar.

Possivelmente, algum desavisado poderia interpretar esse texto como preconceituoso em relação à doutrina evangélica, mas, o que escrevi aí pode ser constatado daqui a pouco ou inclusive agora. Basta perguntar às diretorias das escolas de todas as crianças que conheça, como serão organizadas as festas juninas, sua programação e temática (como se existissem opções de temas para essas festas). Perceberão que muitas sequer celebrarão algo. E as justificativas são sempre constrangedoras.

Na velocidade desse passo, e com o crescimento desse pensamento, não seria exagero ver projetos de lei no futuro com propostas de mudanças de nomes de cidades. Santa Helena virando Eliakim, Santa Bárbara virando Bethel ou São Simão virando simplesmente Simão. Licença poética à parte, seria até engraçado. Uma graça Gospel, por sinal.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Revenge Porn - Nadando com tubarões. A traição da confiança.

 
Nadando com tubarões - Imagem de Stefanie Brendl

Em uma certa praia, houve vários casos de ataques de tubarão.
Alguns fatais e por consequência, causando grandes tragédias. Outros, não fatais, contudo, terríveis, deixando sequelas significativas e enormes traumas psicológicos para a vítima e para toda a família com danos irreversíveis.
Após os primeiros casos, os alertas de "Proibido nadar" e/ou "Perigo! Risco de ataque de tubarões." foram espalhados por toda praia.
Alguns animais foram pegos, entretanto, na dificuldade de incriminá-los, o melhor foi voltar-se para a tarefa da conscientização.
Além deles, as pessoas mais safas, aconselhavam a não nadar naquela praia. E foram inúmeros alertas, diversos avisos e incansáveis conselhos desde o início dos ataques.
Mesmo assim, uns mais afoitos e inconsequentes e outros ingênuos que acreditavam conhecer a "natureza" da natureza e confiar plenamente em sua relação com ela, entravam na água.
É certo que ataques continuaram a acontecer como também é certo que representam uma fração pequena em relação à quantidade de pessoas que entram em águas proibidas.
Agora, a dúvida: porque, mesmo sabendo do risco e conhecendo o tamanho dos números dos ataques e das suas consequências , as pessoas continuam entrando nessas águas?

Agora, troque "entrar em águas infestadas por tubarões" por "enviar vídeos e fotos íntimas pela internet."

Porque ainda, depois de tudo?????

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Seu Jorge tem razão.


Antes que digam que é na Suécia, advirto que é uma foto do show do Black Sabbath em São Paulo.
O ROCK NÃO É PARA NEGROS!
Seu Jorge.

E ele tem razão.

Apesar de que a frase retirada de sua última entrevista esteja descontextualizada, não deixa de ser verdade.

Ele foi mal interpretado mas tem razão...mesmo fora do contexto.
Vamos falar de cor da música.
O que foi Elvis Presley?
Resposta curta: uma resposta branca pra um ritmo cada vez mais em popularização. O Rock And Roll. Música de negros para negros que tornou-se quase, repito, quase universal.

A música moderna ocidental sempre teve cor. Não é o que queremos, mas estamos falando de contextos históricos...
Mas é daí?
Bom, seu Jorge disse, que o rock não chega na favela.
O problema não é o rock...
Voltemos um pouco.

Esse comentário do Seu Jorge me levou a fazer umas contas e não gostei do que encontrei. Apenas 1 em cada 20 roqueiros é negro, mesmo que seja o Jimi Hendrix. E isso lá fora, onde eventualmente brancos pobres também tocam. Aqui no BR, dado o preço dos equipamentos e mesmo o resultado musical, o roqueiro é basicamente um burguês branco que gosta de tocar música em volume alto, ficar doidão e pegar umas meninas. Isso explica o que parecia misterioso, i.é, o pensamento político atual do autor de "Rebelde sem Causa", e daquele outro Sr. que dizia que "O Rock Errou".

Agora olha pro blues! A estatística se inverte.

Acho que a questão está no sub gênero: heavy hard!

Desde Chuck Berry os negros rollavam. Inclusive o nome era uma gíria negra. O que aconteceu foi que criou-se uma indústria do hard rock pra brancos após a explosão do showbiz com Beatles que estenderam o que o produto Elvis ofereceu. Hendrix foi o elo perdido. O melhor dos dois mundos.
Se olharmos pra trás, o Rock and Roll continua negro. Seus filhos bastardos adotivos, heavy e hard, são brancos e é aí que a estatística assusta, porque ignora contexto.

O hard heavy rock nunca foi música de periferia. Nasceu pra ouvidos classificados. Pode hoje estar marginalizado como produto mais ainda é feito pra o mesmo público.

Blues no Brasil tem 99,93% de brancos e nos US está se embranquecendo desde os anos 70. Os novos destaques, notadamente desde SRV, cada vez mais são brancos.
E o contexto explica isso. Os brancos, antes mesmo de Vaughan, já se assanhavam no Blues. Quer uma prova? Clapton! Conhecido como guitarrista de blues porém boa parte de sua carreira ele foi um rocker diferentemente de Winter e Vaughan que são genuinamente blueses.

Mas tudo isso se deve ao fato de que bandas como Led Zeppelin forçaram o blues (mesmo plagiando na cara dura) a sair da sarjeta e se firmar como gênero que está cada vez mais branco nos EUA. Em outros países, não existe histórico de Blues antes de 70.

"Nos EUA os negros não escutam, não curtem e não se envolvem com o Rock. É música quase que exclusivamente de branco mesmo. Negros jovens escutam quase que exclusivamente hip hop e os mais velhos curtem smoth jazz e R&B. Acho que nos vinte anos que moro nos EUA eu nunca vi um negro sequer ouvindo ou se interessando por rock." Disse um amigo guitarrista profissional.

Voltando às estatísticas, depois de contabilizar 273 músicos das bandas de rock que mais gosto e constatar que realmente quase todos são brancos, fiquei meio chateado... Considerando a pequena quantidade de mulheres, latinos e gays, me toquei que passei a vida admirando uma forma de arte típica de macho WASP hétero, como mais de uma namorada curtidora de samba, soul ou MPB já me disse no passado. Tudo bem, o clássico também é por aí e é ótimo, mas aquela áurea de rebeldia chegou a deixar no fundo da minha mente a ideia de que rock era um troço libertário e tal. Mas na real, a liberdade de que se trata é mais pra usar drogas e fazer sexo casual. Fora a resistência à Guerra do Vietnã e alguns caras como o Lennon, a onda predominante são burgueses brancos que arrumaram uma ocupação prazerosa e esteticamente interessante, nada de revolucionário aí.

No Brasil o blues minimamente bem tocado começa em meados dos anos 80.

Os bluesmen negros aceitam os Claptons e SRVs da vida porque sabem que sem eles o gênero vai perder penetração na mídia. No fundo consideram esses caras uns white boys só se dando bem em cima de algo que "é deles". Isso já ouvi de Jr. Wells, Luke Peterson e inclusive num chat aqui no Facebook com, pasmem!, Joe Bonamassa, entre outros menos conhecidos.

Entendo como que o rock não é universal como se pensa....sempre foi música de gente branca (em termos sociais estadunidenses) pra gente branca.

É que no Brasil, as classes sociais nunca foram divididas por cor como lá
apesar de que a maioria pobre de nosso país seja negra.

Mas, coloquemos desse modo, o rock ou pelo menos esse pop rock new wave que chamamos de rock br dos anos 80 sempre foi feito por gente, jovens de famílias de classe média alta

E realmente explica algo sobre o Mr. Revanche e o Sr. Inútil e o fato de caras como Derek Green e Robert Trujillo (esse por ser latino e padecer do mesmo suplício) causarem certo espanto em suas aparições.

Lembro-me da explicação de Vernon Reid sobre o Living Colour ser composta por músicos negros. Ele disse que sabia que chamariam mais atenção como uma banda de hard rock formada integralmente por negros do que pelo talento musical que poderiam ter. E olha que o Reid toca absurdamente bem.

Talvez por ironia, quando você olha pra trás, num show de hard heavy rock, só vê gente de preto! Apesar do trocadilho, a intenção não é infame.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Futebol pra inglês ver



A Premiere League (Liga Inglesa de Clubes de Futebol) cedeu os direitos de transmissão televisiva de seus jogos às empresas Sky Sports e BT por três temporadas a partir de 2016/2017 pela "bagatela" de Sete Bilhões de Euros. É um valor recorde que outros tinham sequer se aproximado. Ainda mais se tratando de um contrato de não exclusividade onde ambas as empresas poderão explorar os 168 jogos do futebol inglês com o melhor que cada canal tem para oferecer.
Serão 130 milhões de euros que receberá cada equipe na série A. É preciso repetir porque soa estranho. Cada um dos times da Premiere League receberá 130 milhões de euros por temporada. Nem mais nem menos que qualquer outro. É quase o mesmo valor que recebem Real Madrid e Barcelona por seus direitos de televisão na Espanha. E são os que mais recebem: 140 milhões. O Almería recebe 18.

É uma fórmula interessante, mas que encontra resistências em ligas bi polarizadas como na Espanha e no Brasil.

Na Espanha, o presidente do Espanyol, Joan Collet, ameaçou juntar-se a proposta de greve caso não se discuta uma divisão mais justa dos direitos de televisão que são praticados hoje naquele país, onde Real Madrid e Barcelona recebem juntos quase 40% do total que é distribuído. Os pouco mais de 60% restantes são rateados com os demais 42 times de primeira e segunda divisão. 

Joan Collet, presidente do Espanyol


“Nos da LFP (Liga de Futebol Profissional da Espanha) estamos dispostos a parar a Liga se não se aprova a lei que regule os direitos de televisão. Ou se discuta de uma vez imediatamente ou vamos parar de verdade." Ameaçou.




O decreto citado é referente ao que estava previsto para ser votado no final do ano passado e definiria o "cumpra-se" a partir da temporada 2016/2017 e tinha como objetivo reduzir as desigualdades existentes na Liga espanhola, a menos equitativa de todo o futebol europeu.
Os dois clubes mais relevantes do futebol espanhol, se apoiam no argumento da visibilidade da marca ou na internacionalização, assumindo para si a exclusividade dos méritos da imagem do futebol do país fora da península ibérica.

A semelhança com o futebol brasileiro é enorme, só que nas terras de Pelé, existem nuances muito particulares.

O caso brasileiro reúne uma cadeia de interesses e interessados que engessa e amarra qualquer tentativa de melhorar o futebol como segmento. A cultura do "cada um por si" acaba por afetar de maneira indireta também e até quem se considera especial, como os principais times do sul/sudeste. Isso explica o porquê de não termos uma liga determinante de fato e o único protótipo de uma que existiu, o Clube dos 13 (o próprio nome já indicava a falta de união), não suportou a primeira investida em sua representatividade. 
Mas como resistir a uma pirâmide de relações acorrentadas e promíscuas como é a publicidade televisiva brasileira? Alguns clubes resistiram à pressão de ceder os direitos à rede Globo porque achavam mais vantajosa (a matemática não mente) a oferta da Rede Record no leilão que se anunciou. A Record oferecia o dobro, apenas pela mídia de TV, do que paga hoje a Globo em todas as mídias (incluindo internet e celulares que eram negociados individualmente). A rede carioca na época limitou-se e emitir uma nota dizendo que sempre promoveu o futebol brasileiro e se considerava parte importante do sucesso do futebol nacional e não participaria de leilões ou barganhas. Em seguida, grandes anunciantes comunicavam que somente exporiam suas marcas na rede Globo e caso o futebol fosse para outra emissora, não manteriam contratos vigentes. Todos orientados por grandes empresas de publicidade que alegavam que suas marcas sofreriam desvalorização fora da TV da família Marinho. Uma relação tão bem arquitetada que lembrava em parte o modelo cooperativo de membros das sociedades secretas. O Corinthians ganhou um estádio, como bem afirmou seu presidente no momento Andrés Sanchéz e o Flamengo uma cota alta como a do time paulista. Viraram a mesa. Tocaram porto seguro e abandonaram o clube e os companheiros no meio da tempestade. Os outros, amedrontados, foram cedendo um por um.

Corinthians ou Flamengo recebem por ano quase 10 vezes mais que Chapecoense ou Ponte Preta. Possuem muito mais torcedores e isso por si só lhes proporcionam mais ingressos econômicos, (e poderiam proporcionar muitíssimo mais caso fossem mais bem geridos) através de merchandising de produtos licenciados, rendas em entradas de jogos e por ter uma marca sólida, melhores patrocínios de camisa. Isso sem contar outros acordos menores. Então, se possuem fontes naturais de ingressos econômicos, porque recebem quantias maiores nas cotas televisivas?
O argumento é o da exposição. Mais exposição = maior valor de cota. Seria bom o argumento caso jogassem ambos apenas entre si em amistosos regulares para agradarem suas torcidas.
O argumento dos dois gigantes espanhóis é parecido, porém, eles possuem a virtude de serem marcas fortes e de sempre manterem conquistas importantes o tempo todo. O que não acontece com os dois times brasileiros citados já que possuem mais fiascos que conquistas de maneira regular.

Mas, afinal, por que esse modelo inglês incomodou os espanhóis?
"Qualquer equipe da Premier terá condições de contratar qualquer jogador da liga espanhola e pagar-lhe o dobro do que pagamos. Isso já acontece e acontecerá muito mais vezes se não se resolve essa situação. ". Finaliza o presidente do Espanyol complementando a frase citada no início texto. É curioso ver um presidente de um importante time europeu de uma grande liga preocupadíssimo com um fenômeno que acontece em terras sul-americanas por pelo menos 50 anos.

O dirigente se esquece de que poderia ser pior: em 2006, o Real Madrid propôs uma criação de uma grande liga europeia que pudessem jogar os doze principais clubes do continente somados a mais oito que estariam sujeitos a acesso e descenso. Uma grande liga com uma dúzia de intocáveis, oito marginais e com pelo menos 30 divisões de acesso. As ligas nacionais de primeira desapareceriam e permaneceriam somente as copas. O clube madrileno já naquele ano sentia o incomodo (leia-se tédio) de enfrentar em sua liga doméstica, equipes muito fragilizadas tecnicamente no domingo e encarar um clube muito forte na quarta-feira na Champions League. A ideia foi freada pela UEFA que puxou a orelha dos madrilenos.

Eis aqui uma ideia elitizada do futebol a qual os ingleses jamais concordarão e sequer debateram em seu momento. Ao invés de apoiar o agigantamento de 2, 3 ou 6 equipes, a Premier Prefere apoiar a liga como um todo. Uma forma de incentivar e aprimorar o talento em todos os seguimentos desse esporte, de maneira uniforme e mantê-lo próximo; além de um poder de negociação muito maior numa cessão de direitos de televisão.

Essa filosofia levou à assinatura do mega contrato firmado no início do ano que foi precisamente impulsado pela venda de seu futebol para países como Tailândia, Singapura e a ilha de Hong Kong, principalmente, chegando a mais de 1,2 Bilhões de euros por temporada. O mercado estrangeiro é tão interessante que a Premier estuda realizar alguns jogos da liga em alguma cidade fora da Inglaterra.

Richars Scudamore, Executivo chefe da Premiere.


"Este novo acordo garante aos clubes poder seguir investindo e atuando de maneira sustentável. Também permite que a Premier League continue apoiando a pirâmide do futebol: desde a base até o profissional", assegurou Richars Scudamore, executivo chefe da liga inglesa.




Essa linha de pensamento define a unidade dos ingleses a respeito de seu futebol: um negócio muito mais forte, rentável e sustentável unido do que individualizado. Como nota especial, é preciso dizer que 1% de tudo será aplicado em outros esportes. Não esqueceram ninguém.

Por que o modelo inglês daria certo no Brasil? É difícil dizer o que daria certo quando se aplica um modelo estrangeiro, entretanto é fácil apontar o que pode dar errado. A “espanholização” do futebol no Brasil pode aumentar ainda mais o abismo entre equipes tradicionais do país. Algumas inclusive fecharam as portas. Outras abrem somente por três meses. Outras mantem apenas a base na esperança de lucrar com revelações.

A questão das cotas não é fazer com que os que recebam mais diminuam seus rendimentos, é fazer com que todos ganhem mais também e de forma igual negociando o futebol como um produto só e oferecendo para mais de uma empresa.
Ao invés de receber um bilhão de reais por ano num contrato de exclusividade, os times poderiam estar recebendo até cinco, vendendo o produto para várias empresas e que essas, assim como os clubes de futebol, montem equipes que cativem os telespectadores e que esses, decidam onde ver o futebol, criativo, atrativo e competitivo desde a transmissão.
Numa conta simples, cinco bilhões divididos por 40 clubes, daria 125 milhões de reais para cada um dos 40 times das nossas duas principais divisões. Dinheiro suficiente para, se bem fiscalizado e gerido, reviver nosso futebol e devolve-lo ao topo do mundo. Dessa maneira, de imediato, eliminaríamos mercados emergentes que levam jogadores promissores, como Ucrânia, Rússia, Turquia, China, Oriente médio, entre outros de menor expressão e aproveitaríamos os talentos dos países vizinhos que poderiam acrescentar muita qualidade no futebol brasileiro como fazem hoje na Europa. Isso sem contar no fato de que se venderia um produto adequado a pratica e desfrute desse esporte, tanto para jogadores quanto para torcedores que hoje sofrem com horários impróprios para o espetáculo, impostos pela empresa que delibera os horários para sua melhor conveniência. Uma inversão absurda de valores.

Mas não se pode cair em ilusões. As grandes equipes do país jamais se uniriam em pensamento coletivo porque sabem que poderiam sofrer com o relevo de equipes menos tradicionais, porem mais bem geridas e que passariam a contar com recursos similares. Existe também o fator político que misteriosamente faz com que as coisas caminhem de maneira diferente do que deveriam e que clubes fechem acordos menos vantajosos que outros oferecidos por questões que fogem ao entendimento do pensamento lógico.

A Inglaterra olhou pra dentro de casa e decidiu valorizar cada membro da família. O futebol brasileiro precisa de um debate urgente a respeito de seu futuro. Ou pensa como coletivo ou desaparece como mercado. Desse modo, quando as novas gerações preferirem olhar pro outro lado do atlântico, e nossos times não serem mais interessantes, nem a televisão que diz ter feito muito pelo futebol, se interessará em pagar valores importantes. Nesse momento já não adiantará se juntar, porque esse é o momento em que nem mesmo juntos, os clubes brasileiros valerão alguma coisa e terão sorte de expor suas camisas em algum horário das grades esportivas das cadeias que transmitem futebol internacional. Da maneira como a coisa caminha, pode se prever inclusive moleques torcendo por clubes nos EUA, já que os Yankies começam a pegar gosto pelo Soccer. E naquele país, dinheiro, qualidade de espetáculo e gestão esportiva é tão abundante quanto foi até pouco tempo, nossos talentos nesse esporte inglês.